A verdade existe?

Há dias assim, uma partilha no Face, um comentário e um turbilhão de pensamentos à volta desses insignificantes factos. Os pensamentos têm tendência para ficar colados e das duas umas ou espero alguns dias até descolarem ou transfiro-os para o papel. A verdade existe? Sim, existe e podemos alcançá-la. Já a Verdade, não sei e sinceramente não me interessa pessoalmente. A verdade chega-me e sobra-me.

Este texto nasceu de parto natural, ou seja, no Facebook. A mãe é a socióloga Eva Illous e o pai um amigo jornalista que por motivos óbvios vai ficar anónimo.

“O que aconteceu na cultura ocidental para as pessoas se desinteressarem do próprio conceito de verdade? De facto, se os mentirosos são hoje bem-sucedidos, é porque a verdade já não é tão importante para nós”.

Foi a minha partilha no Facebook deste excerto do artigo “Sem Verdade Não há democracia” de Eva Illouz [1] que iniciou a gestação deste texto. Isto, porque após uma pequena troca de comentários entre mim e o Amigo Jornalista Anónimo (AJA), este terminou a conversa com “uma verdade: gosto disto mas tenho de ir trabalhar” rematando com “interpreta como quiseres”. Ok, desafio aceite. Vamos a isso!

Rápido e bem, não há quem

Fazemos inúmeras decisões todos os dias e não podemos gastar o tempo e energia suficiente para as resolver todas de modo 100% racional. Além disso, muitas das decisões são de pouca importância e o custo de as errar é menor que o custo necessário para as analisar em toda a sua complexidade: quem é que se dá ao tempo e trabalho mental de analisar TODAS as variáveis para escolher o melhor lugar numa esplanada?

Para essas decisões do dia a dia, usamos o “modo de pensamento tipo 1” 1,2 que faz uso de heurísticas 3 para obter uma resposta rápida. Assim, ao invés de analisarmos toda a situação, usamos o conhecimento adquirido em problemas anteriores semelhantes para obter uma resposta e respectivo modo de actuação.

Considerando a minha interacção ao longo de muitos anos com o AJA, não tenho motivos para duvidar dele e, além disso, o custo de estar errado é irrelevante. Como tal, a decisão sobre a veracidade dessa afirmação envolveu meio neurónio e um nanossegundo e o resultado é obviamente positivo: sim, é verdade.

Mas vêem aqueles braços frenéticos no ar lá ao fundo? São os PIM, os Picuinhas Irritantes e os Metafísicos 4 (distinção feita porque há picuinhas irritantes que não são metafísicos). Em situações normais devemos ignorá-los, mas como estamos aqui para complicar vamos fazer de conta que este problema é mais complicado do que aquilo que é.

Entidades não devem ser multiplicadas além do necessário

Mas antes de complicar vamos fazer uma visita ao nosso amigo Guilherme de Ockham 5. É em sua homenagem que foi dado o nome ao princípio da “navalha de Ockham”, um raciocino de base heurística que defende que “entidades não devem ser multiplicadas além do necessário”: Se as explicações que estamos a dar são demasiado rebuscadas, é porque não estamos a ir no caminho certo. Ou para simplificar: as respostas complicadas devem ser evitadas. A navalha de Ockam pode não ser muito conhecida, mas os seus princípios estão espelhados num acronímico bem mais comum, o KISS (Keep It Simple, Stupid) 6.

“O AJA está a mentir, o que está a acontecer realmente é que está a ser ameaçado por extraterrestres”. Para esta explicação ser verdade, têm de ser verdade uma série de afirmações: existem extraterrestres, visitam a terra e ameaçam pessoas. À luz do conhecimento actual, nenhuma dessas afirmações é verdade. Claro que há quem pense que sim, mas pertencem a uma categoria que nos interessa menos que os PIM: a malta das teorias da conspiração que acredita que os extraterrestres nos visitam e que “eles” sabem e mentem-nos sobre isso.

Agora sim, complicar o simples

O problema é que sou ciumento! E se o AJA me está a despachar para ir conversar com outro amigo? Nas palavras imortais da Peg, temos um grande problema!

Nesta situação a questão ganha importância, e como tal merece mais reflexão. Sem factos não vou conseguir saber se o AJA mentiu, mas posso tentar calcular essa probabilidade. Foi o que fiz de modo não formal com a resposta que dei: “tendo em consideração os factos: tenho-te em boa conta, tens um trabalho com horários da treta: considero essa afirmação verdadeira”. Se quisermos tornar este raciocino mais formal podemos atribuir-lhe valores.

No entanto cometi um erro na resposta, por isso temos de a corrigir antes. O que o AJA disse foi “gosto disto mas tenho de ir trabalhar”, logo não devia ter respondido “…tenho-te em boa conta, tens um trabalho com horários da treta… “, mas sim “…sei que gostas deste assunto, tens um trabalho com horários da treta e à priori, tenho-te em boa conta”. O “tenho-te em conta” é um conhecimento que vem de trás e que deve ser tido em conta ao analisar a afirmação actual. Já sabemos que o AJA é de confiança, logo a probabilidade de ser verdade a frase dele aumenta, o que, aliás, fizemos logo na primeira avaliação.

Este tipo de raciocínio leva-nos em direcção ao teorema de Bayes 7 que como o Sebastião vos poderá dizer, está no meu coração. Mas por agora já temos muito mato para desbravar e se colocar o Bayes ao barulho sou capaz de nos perder no meio do caminho. Sendo assim, avancemos sem nos preocuparmos com a confiança prévia no AJA:

  1. Probabilidade do AJA “gostar disto”: Eu conheço o AJA há muitos anos, este assunto interessa-lhe, mau seria que sendo jornalista não lhe interessasse. É um assunto sobre o qual já falámos muito e pelo qual temos grande paixão e opiniões convergentes. Atribuo a essa afirmação o valor exageradamente baixo de 95% de probabilidade de ser verdadeira. Há sempre a hipótese de ele já estar farto de falar sobre este assunto ou de não estar a achar interessante esta conversa específica.
  2. Probabilidade do AJA “ter de ir trabalhar”: Como disse, conheço-o há muito tempo e desde que o conheço, ele sempre trabalhou ao fim de semana. Há sempre a hipótese de ele não precisar de trabalhar este fim de semana e querer ir à praia sem correr o risco de eu me querer colar. De qualquer maneira, não vejo razão para desconfiar dele nesta afirmação, mas é sempre possível estar a mentir por isso vamos apostar nuns baixíssimos 99% de probabilidade de estar a dizer a verdade.

Agora com a ajuda da matemática, calculamos a probabilidade de a frase, “gosto disto mas tenho de ir trabalhar” ser verdadeira, o que acontece quando as duas afirmações analisadas forem verdadeiras:

P(frase ser verdadeira) = P( 1) x P(2)=95% x 99% = 0,97 x 0,95 = 0,9405 ≈ 0,94 ≈ 94%

E ao calcularmos probabilidades com esta precisão não estamos a cometer o crime capital de nos transformarmos em PIs? Verdade que sim, e este exercício não desse ser feito de animo leve. Foi feito aqui, mas na prática deve ser evitado.

Além disso, este tipo de cálculo está carregado de subjectividade e é mais uma arte (manhosa) que uma ciência, logo os resultados obtidos têm de ser interpretados com bastante prudência. Tentemos outro método.

Possível, plausível e provável

Porque só coloquei a hipótese de ele estar a mentir para se ver livre de mim? Por exemplo não seria possível ele estar a ser assaltado e ser obrigado a escrever isso para ele acabar a conversa comigo e poder ser amarrado? Possível é, mas não é plausível. E preocuparmos-mos com o implausível, aqui para nós que os PIM não nos ouvem, é completa e total perda de tempo para 99,99…% da actividade do dia a dia.

Mesmo descartando algumas explicações menos ortodoxas, os cálculos da seção anterior são um exagero e corremos o risco de sermos confundidos com um PI, por isso simplifiquemos o que complicámos anteriormente: Ao invés de calcular percentagens de probabilidade ao milímetro, podemos adoptar a estratégia de dividir as afirmações que estamos a analisar em 4 grandes grupos:

PROVÁVEL

A maior parte dos acontecimentos do nosso dia a dia moram aqui. Uma afirmação (ou explicação) provável leva um rótulo de potencialmente verdadeira até prova em contrário.

PLAUSÍVEL, MAS IMPROVÁVEL

Este é o departamento das afirmações trabalhosas. Especialmente as da subsecção plausível e pouco improvável (a atirar para o lado do provável). Estas afirmações ou explicações devem ser analisadas com cuidado e de preferência confirmadas com factos antes de serem aceites como verdadeiras.

Já as muito improváveis devem ser descartadas sem peso na consciência. Pode o AJA estar a ser assaltado e a escrever sob pressão? Poder pode, mas não é de todo provável. Se ele morasse numa favela do Rio de Janeiro pensava duas vezes nesta hipótese, onde ele mora, não.

POSSÍVEL, MAS IMPLAUSÍVEL

Pode o AJA estar com pressa porque foi convidado para uma reunião super-secreta de super-repórteres que vão revelar toda a verdade? Lamento AJA, não me parece.

Os argumentos que pertencem a esta categoria podem ser descartados sem pensar duas vezes.

IMPOSSÍVEL

Aqui é o mundo dos metafísicos. Podemos confiar nos nossos sentidos? Eu e o AJA existimos ou somos só produto do sonho de uma entidade cósmica? Este impossível é um impossível prático, não é um impossível matemático, há sempre uma hipótese, por mais remota que seja de estarmos a viver na Matrix, mas não me parece que o comum, ou até o incomum, dos mortais deva perder tempo com isto tipo de argumentação.

As afirmações que pertencem a esta categoria podem ser descartados sem pensar meia vez.

Para calcular a veracidade de um conjunto de afirmações, classificamos as afirmações individuais e consideramos a classificação menos provável/mais impossível como resultado final.

Se a frase fosse “gosto disto mas tenho uma loiraça à minha espera”, “gosto disto” é (muito) provável mas “tenho uma loiraça à espera” é implausível (lamento AJA), logo a afirmação é implausível.

Voltando à frase inicial e repetindo o processo feito na seção anterior, mas agora reduzidos a estas categorias. Podemos dizer que ““gosto disto” é (muito) provável e “tenho de ir trabalhar” é (muito) provável, logo a classificação final é (muito) provável. Na ausência de factos, é o mais perto que podemos chegar da verdade.

Factos, queremos factos!

Isto das probabilidades é muito giro, mas só com essa informação não podemos publicar a notícia “AJA abandona conversa para ir trabalhar”. Para isso precisamos de factos: podemos ir espiar o AJA para ver ser está a trabalhar; piratear o PC dele e procurar os emails para ver se o trabalho estava agendado, não vá ter decidido ir trabalhar só para fugir à conversa; podemos inclusive entrevistar os colegas e o editor do jornal.

Após esta verificação, e obtendo resultados positivos, podemos considerar a afirmação verdadeira? Claro que sim, só os PIM é que podem arranjar argumentos para discordar. Vale a pena ouvi-los? Obviamente não, como escreveu, e bem, Almada Negreiros “Morra o Dantas, Morra[m os] PIM”.

Podemos, e devemos, abrir uma excepção feita para assuntos de importância capital e de complexidade elevada como decidir se devemos ou não lançar um ataque nuclear contra outro país. Se calhar aqui convém ouvir os Picuinhas. Quanto aos metafísicos eles que se ouçam uns aos outros e se chegarem a alguma conclusão útil venham cá dizer alguma coisa à malta que está ocupada a viver no mundo real.

É toda a verdade? Talvez não, há sempre a hipótese de haver dados que enriquecem a estória e dão uma imagem mais completa. É mais importante para o AJA trabalhar do que falar comigo? Obviamente não (cof, cof), mas é mais importante ter dinheiro para comer do que falar comigo. Acrescentar que ele trabalha porque, como todos nós, precisa de o fazer para ter dinheiro para viver podia dar uma imagem mais real da verdade. Mas factos como esse são dados como adquiridos pela maioria dos mortais. Acrescentar essa informação seria chover no molhado.

Conclusão

A verdade existe? Sim.

Podemos chegar à verdade? Sim em muitos casos, lá perto em outros e nem por isso nos restantes.

Devemos ouvir a opinião dos Picuinhas Irritantes e Metafísicos. Nope.

Referências

1. Smith, J. What Is ‘System 1’ Thinking—and How Exactly Do You Do It? | Observer. https://observer.com/2017/09/what-is-system-1-thinking-and-how-do-you-do-it/.

2. Kahneman, D. Thinking, Fast and Slow. (2011).

3. Heurística – Wikipédia, a enciclopédia livre. https://pt.wikipedia.org/wiki/Heurística.

4. Metafísica – Wikipédia, a enciclopédia livre. https://pt.wikipedia.org/wiki/Metafísica.

5. Navalha de Ockham – Wikipédia, a enciclopédia livre. https://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Ockham.

6. Princípio KISS – Wikipédia, a enciclopédia livre. https://pt.wikipedia.org/wiki/Princípio_KISS.

7. Teorema de Bayes – Wikipédia, a enciclopédia livre. https://pt.wikipedia.org/wiki/Teorema_de_Bayes.

8. Illouz, E. A brief history of bullshit : Why we ’ ve learned to ignore truth. 1–9 https://www.haaretz.com/israel-news/.premium.MAGAZINE-a-brief-history-of-bullshit-why-we-ve-learned-to-ignore-truth-1.7837206 (2019).

9. Illouz, E. Il n’y a pas de démocratie possible sans vérité. https://www.courrierinternational.com/long-format/idees-il-ny-pas-de-democratie-possible-sans-verite.

  1. O artigo foi publicado em Portugal no Courrier Internacional de Março de 2020 e está disponível online Em Inglês 8 e Francês 9.


Artigo publicado originalmente na Revista Devaneios

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