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Afinal não sou só eu, fico mais descansado.

A homilia de Natal do Sr. José Policarpo arreliou-me (na primeira versão deste texto, metia-me nojo, mas achei que era pouco simpático para o Sr e decidi mudar para algo mais suave)! Especialmente a parte em que ele enaltece a convicção de acreditar em deus e desdenha da convicção de não acreditar.

A João disse-me que eu estava, mais uma vez, a ser fundamentalista, a não dar aos outros o direito  a terem a sua opinião e que não  era isso que ele estava a dizer. Achei que não era o caso, mas, pelo sim pelo não, não escrevi nada sobre o assunto.

Já li depois disso alguns textos a criticar o Sr Policarpo, mas sendo a maioria deles de associados da Associação Ateista (“fundamentalistas” como eu) não liguei muito.

Felizmente, e para meu descanso, um ateu convicto MAS até prova em contrário “não fundamentalista” escreveu um texto exactamente sobre a parte da homilia que mais me chamou a atenção:

“…Acreditar que Deus existe é uma convicção profunda, mas acreditar que não existe, curiosamente, não o é. Alguém, munido de um aparelho próprio, mediu a profundidade das convicções e deliberou que as do crente são mais fundas que as do ateu. Quando alguém diz acreditar em Deus, está a exprimir legitimamente a sua fé; quando um ateu ousa afirmar que não acredita, está a agredir as convicções dos crentes. Ser crente é merecedor de respeito, ser ateu é um crime contra a humanidade…”

Podem ler o texto completo do Ricardo Araújo Pereira na Visão.

Momento de Poesia

Acho que hoje, graças à Belita, li pela primeira vez um poema digno de registo!

Como estamos no fim do ano e o tema do poema tem muito a ver com a minha perspectiva da vida e tudo a ver com o slogan deste blog (VIAJAR É VIVER, O RESTO É CONVERSA!) aqui vai ele.

É de Pablo Neruda e chama-se:

Morre lentamente quem não viaja

“Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o “preto no branco”
E os “pontos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias
queixando-se da má sorte ou da chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!»

Cláudio vs João César da Neves : Round ….hhmmm.. bué!

O alucinado de serviço do Diário de Noticias escreveu um belo “Conto de Natal” que se não fosse tão ridículo era comovente.
Eu, claro; enviei a minha opinião sobre tão estupidificante prosa, e eles… publicaram.
Haja paciência para ainda se darem aos trabalho de ler os meus e-mails! Para que fique registado para a posteridade mais um e-mail meu publicado no DN, aqui vai o texto em questão (entre [] os termos que devia ter usado, mas que por falta de reler vezes suficientes antes de enviar para o DN me escaparam):

O Sr César das Neves é um brincalhão. Então não é que escreveu um texto a exaltar a SUA religião, o Cristianismo, por ela ser a “única que não tem no seu centro livros, cultos” e não se basear em “aprender dogmas, rezas, ofertas ou mandamentos”? Não anda muito longe da verdade com estas declarações, mas deve ter tido um ataque de amnésia e esqueceu-se que a sua [SUA] religião é o Catolicismo que assenta exactamente nesses pressupostos. Ou será que nas missas que o Sr César das Neves frequenta não há bíblias, e rezas? E já agora, seria útil o Sr César das Neves reler as suas crónicas para ver a quantidade de vezes que escreveu sobre [defendeu] dogmas e mandamentos.

In DN (Correio dos Leitores), de 23/12/2009

Parábola : A Invenção Maravilhosa

1. Como transformar alhos em bugalhos

A parábola é uma magnifica figura de estilo que tem permitido à Igreja Católica adaptar-se a novas realidades sem nunca se desmentir : O que ontem era Verdade, hoje é uma parábola.
Durante séculos a Bíblia  foi interpretada à letra e foi justificação para todo o tipo de horrores, mas à medida que a civilização evoluía as pessoas começavam a questionar as justificações que a Igreja invocava para as suas acções obrigando-a a renunciar a muitas delas. E assim, a pouco e pouco, e à medida que a Igreja tinha cada vez mais dificuldades em fazer aceitar as suas acções,  e para não se desmentir, a Igreja foi transformando as Verdades em parábolas até chegarmos ao ponto de praticamente não haver Verdades na Bíblia, só parábolas:
Deus mata e castiga? é parábola. Deus é vingativo e invejoso? é parábola. Deus não gosta de homosexuais? é Verdade. Deus defende a castidade? é Verdade.
Não é muito difícil ver o padrão; se determinada atitude/sentimento não é aceite pela esmagadora maioria da sociedade, transforma-se em parábola. Este processo de “parabolização” não é obviamente igual em todo o lado. Por exemplo, há poucas semanas, o pastor que dirige uma determinada seita evangélica nos Estados Unidos disse que rezava para que o Obama morresse, e de preferência com cancro. Ora, uma pessoa que admite na televisão uma atitude tão radical  (e louca) não terá com certeza problema nenhum em aceitar que o seu Deus mata e castiga. Ele não precisa de inventar desculpas para as atitudes descritas na Bíblia, porque concorda com elas .

2. Parábolas para todos os gostos

Este truque das parábolas não tem ciência nenhuma, se quisermos podemos aplicar parábolas a tudo, desde a história da carochinha até aos Lusiadas e transformar livros que foram escritos com um intento noutro completamente diferente. É claro que estes exemplos não serviriam tão bem como a Bíblia pois falta-lhes a diversidade de uma sociedade complexa. Mas se pegarmos num livro como a “Guerra pela Civilização” de Robert Fisk que retrata décadas de guerra nas zona dos Balcãs e Médio Oriente, podemos dizer que estamos a olhar para uma versão actualizada da Bíblia. Ambos retratam a história da mesma zona do mundo, ambos falam de problemas civilizacionais e ambos falam de histórias pessoais.
São ambos livros de História, com a diferença de que na Bíblia não é possível distinguir a realidade da ficção, é como o relato de um pescador: até acreditamos que ele apanhou um peixe, mas estamos quase certos que está a exagerar no tamanho.
Não tenho qualquer dúvida que um bom orador munido simplesmente do livro de Robert Fisk podia fundar  uma religião, recheada de belas parábolas, bastando-lhe para tal, uma audiência suficientemente receptiva e pouco esclarecida.

3. No fim, era a parábola

As parábolas são “armas” poderosíssimas, podem servir para o que quisermos : transformar histórias de amor em violência e histórias de violência em amor.
A Igreja inventou inúmeras parábolas na Bíblia, mas a derradeira parábola na Bíblia, é Deus. Deus existe ou é uma parábola? Deus é um ser omnipresente e omnipotente ou não passa de uma parábola sobre a consciência humana? Porque não reduzir Deus a um punhado de sentimentos: amor, inveja, ódio, etc..?
A Igreja Católica faz as interpretações  que quer e lhe interessa da Bíblia, porque não podemos nós fazer o mesmo e dizer: Deus não existe, é uma parábola! Aliás, para ser justo, há que dar o crédito a alguns teólogos que já dizem (quase) o mesmo.
Dizem eles que: Deus é Amor. Tirando o facto de estarem a fazer  batota e a reduzir Deus a um sentimento quando existem tantos, eles fazem o mesmo que eu :
Negam que Deus tenha inventado o homem e que foi antes o homem a inventar Deus.

 

Nazaré, Setembro de 2009