O cérebro é um órgão muito organizado: os movimentos são processados numa região, a visão noutra, a audição ainda noutra e por aí afora1. Tudo no cérebro tem o seu local. Tudo, à excepção da dor. A dor afecta todo o cérebro como um irritante sino de igreja que não deixa ninguém dormir. Enquanto houver dor, se suficientemente forte, o cérebro fica paralisado e não faz mais nada2.
Portugal também está paralisado pela dor. A dor que veio sob a forma de crise e que ameaça tornar-se crónica e incapacitante graças à receita da austeridade. As pessoas estão a ficar sem dinheiro. Sem dinheiro não há consumo, fecham lojas, fecham restaurantes, fecham fábricas. O estado recebe menos impostos e tem de gastar mais com ajudas sociais3. E qual é a resposta que tem sido dada? Mais impostos, o que aumenta a dor e agrava a paralisia.
Também eu me sinto paralisado por esta dor que me atrofia o pensamento e me aumenta o sentimento de culpa. Sinto-me culpado se penso em ir a um concerto, sinto-me culpado por estar a gastar tempo na organização de um evento de divulgação científica4. Não faria mais sentido envolver-me mais no combate à dor e aos seus agentes?
Escrevo a 5 de Outubro de 2012, o dia em que, como que em luto pelo estado paralisado do país, as comemorações do dia da República foram vedadas aos Portugueses. Faria sentido escrever sobre outra coisa?
2 – Li (ou ouvi) um artigo de neurobiologia que dizia que a dor era sentida no cerebro inteiro, agora só consigo achar artigos que mapeam a dor para zonas especificas.
Catano, cometi um flop? Espero que não, vou dar uma volta mais atenta a ver o que encontro.
E hoje chegou a chuva, ou mais exactamente, a Nanine; uma tempestade mail disposta que colocou o grupo central em alvorouço mas que também chegou aqui. Aproveitámos para visitar centros de ciência. Microbios, centros de reduiperação de lagoas e grutas vulcanicas fizeram o dia.
Hoje já pareceu Açores. Fomos para o nordeste da ilha que é a zona mais selvagem e escarpada da ilha. Quedas de água, muita vegetação e belas vistas são o menu local. Também fizemos uma caminhada até à lagoa do Congro, que fica escondida no fundo de uma cratera e quem tem um ar complamente tropical tal é a quantidade de humidade no ar e vegetação. Bem porreiro, pá.
Hoje estivemos automobilizados e apesar dos contratempos iniciais com a empresa de aluguer de carros, o dia correu bem. Vimos a parte Oeste da ilha de S.Miguel que inclui a famosa lagoa das sete cidades que juntamente com a vila do mesmo nome ficam no fundo de uma imponente caldeira vulcanica. Mas fantástico mesmo é aponta da ferraria (se não me falha o nome), uma “plataforma” junto ao mar feita de lava e de onde sai uma fonte de água a ferver que se precipita de algumas dezenas de metros do mar onde ainda cai quente… e além disso ainda há uma bela zona de banhos:-)
Hoje voltou a ser dia de água, mais exactamente dia de água pela cabeça abaixo. Tirámos o dia para. Ir conhecer Ponta Delgada e choveu o tempo todo. PD é uma terrinha simpática mas sem nada de muito especial para salientar. Foi um dia bem passado a fazer people-watching e a conhecer igrejas e jardins 🙂
Ontem foi dia de água quente, hoje foi dia de água morna, que é como quem diz; mar que segundo consta já está a arrefecer e portanto está a uns meros 22 graus. Começámos o dia com uma saída de observação de cetáceos que nos rendeu alguns cachalotes e um grupo de grampos ou como são conhecidos por aqui, golfinhos michael jackson, pois nascem pretos e vão ficando brancos. A saída, feita a partir de Vila Franca do Campo foi num rápido semi-rigido o que permitiu aliar baleias com viagem de montanha russa À tarde tivemos banhinhos de mar até ficar fartos, porque esperar pelo frio para saír do mar, aqui não funciona. A título de curiosidade refira-se que, por estas bandas, as pulgas do mar são pretas, mantendo-se assim coerentes com a sua vocação de serem da cor da areia.
Hoje o dia começou às 4 da manhã, hora a que nos levantámos para apanhar o avião. O dia nos Açores esteve bastante agradável e os nossos anfitriões estavam de folga o que garantiu um dia de visitas sem ter pensar muito 🙂 Fomos ver as furnas e as suas fumaloras efervescentes e acáboms o dia dentro de uma fumalora versão piscina. E agora toca a dormir que amanhã é dia de ir caçar cachalotes logo pela manhanzinha.
“Coiso e tal, isto e aquilo, e já agora decidi reduzir os vossos salários em 7% e entregar esse valor às empresas. E agora vão ver a selecção jogar para afogarem as mágoas enquanto eu me vou divertir à brava num concerto do Paulo de Carvalho1”.
Não deve ter sido bem assim que se passou, mas é a memória que tenho daquela noite surreal, em que o Pedro conseguiu unir os Portugueses como só Scolari tinha feito. Foi a noite em que ele mostrou o jogo todo, o plano que tem para Portugal e o que espera dos Portugueses. Estes obviamente não gostaram e nem o facto de ser dono de um semblante honesto e de uma voz grave (atributos que está provado serem dos factores que mais influenciam o voto dos eleitores2) o salvou. Portugal veio para a rua como há muito não acontecia e um pouco por todo o lado as pessoas juntaram-se para mostrar a sua indignação.
Na Marinha Grande, e correndo o risco de errar, eu diria que éramos entre duas a três mil pessoas, o que num concelho com cerca de 40 mil habitantes me parece significativo. A manifestação foi morna, facto que não me surpreende, pois devia haver muitos como eu, novatos nestas andanças e sem grande jeito para palavras de ordem ou para bater nos tachos. No entanto, demos o corpo, estivemos lá e acho que o mais importante foi conseguido: uma grande mancha humana a percorrer a cidade por um objectivo comum.
O nosso cérebro e os nossos sentidos não podem ser confiados cegamente. O cérebro tem vida própria1 e por vezes toma decisões e não nos explica porquê ou como o fez. Os sentidos, por sua vez, muitas vezes não funcionam como nós esperamos e pregam-nos partidas.
Para que não tenhamos dúvidas sobre esse facto e para que não pense que estou aqui só para o colocar de mal com o seu cérebro e restante corpo, faça o seguinte exercício:
Tape o olho esquerdo e olhe com o olho direito directamente para a estrela da figura 1. Comece com uma distancia de cerca de 50 cm vá aproximando a cara devagar sempre a olhar para a estrela. As duas bolas devem ser visíveis com a sua visão lateral. Vá afastando e aproximando a sua cara do monitor devagar entre os 20 e os 50 cm até uma das bolas desaparecer. Se não conseguir experimente, com distâncias maiores/menores.
Viu umas das bolas a desaparecer? Espero que sim. Não se trata de uma ilusão de óptica que funcione para uns e não para outros, é uma característica física dos nossos olhos que é impossível contornar.
Figura 1: Detecção de ponto cego fisiológico
Do olho ao cérebro
Figura 2: Olhos de Vertebrado e de Polvo – 1. retina; 2. células foto-receptoras; 3. nervo óptico; 4. ponto cego
A luz é detectada por células foto-receptoras instaladas na retina dos nossos olhos. Essa informação é convertida em sinais eléctricos e transmitida ao cérebro através do nervo óptico. No olho de um polvo (à direita na figura 2) a história acaba aqui, mas nos vertebrados (à esquerda) existe uma complicação. Os sensores ópticos estão voltados para trás e as fibras ópticas que fazem a ligação ao cérebro têm de atravessar a retina para chegar ao cérebro. Na zona de passagem, como é óbvio, não há células foto-receptoras e por isso, não vemos. Esse ponto chama-se ponto cego fisiológico.
Felizmente, temos dois olhos, e o cérebro faz a composição dos dois para nos apresentar uma imagem completa e sem falhas. É um feito extraordinário da parte do nosso cérebro e levar-nos-ia a levantar-mo-nos e a fazer-lhe uma ovação não fosse um pequeno pormenor que apesar de fantástico não deixa de me incomodar; o que o cérebro não vê, inventa!
Se repararam, e se não repararam façam de novo, o local onde o ponto desaparece não fica preto como devia ficar. Se não há foto-receptores para verem o que há ali, não entra luz, se não entra luz devia ficar preto, mas não fica, fica branco como o resto da folha.
É absolutamente brilhante: se o que está à volta é branco, ali naquele pontinho que não sei o que se passa o mais certo é ser branco também.
Pois é, é o mais certo mas não quer dizer que seja o certo, como é o caso. Experimente o mesmo exercício mas agora com dois traços em vez de duas bolas:
Figura 3: Detecção de ponto cego fisiológico
Se o leitor não for um polvo, é provável que haja uma altura em que ao invés de dois traços vai ver um. O que acontece é que o cérebro não vê o que se passa entre os dois traços e se à esquerda à traço e à direita também, o mais provável é ser tudo um traço.
Não é um problema muito grave, afinal o ponto é pequeno e não dá para o cérebro inventar muito nesse espaço. No entanto, esta experiência serve para percebermos que o cérebro quando não sabe, pode inventar, e como tal as suas conclusões têm de ser encaradas com alguma desconfiança, especialmente quando somos confrontados com visões que não se enquadram com o esperado funcionamento da realidade como a conhecemos.
Há inúmeros exemplos e testes sobre ilusões de óptica, ou seja, situações em que o cérebro interpreta mal os dados que chegam dos olhos. O exemplo da figura 4 é um dos meus favoritos, tal é a clareza e simplicidade do mesmo.
Figura 4: Ilusão de Óptica
O cérebro tem dificuldade em avaliar o tamanho dos objectos, usando normalmente os objectos em redor para comparações.
Ele sabe que o círculo central da esquerda é maior que os círculos à volta e que o círculo central da direita é menor que os círculos à volta; círculo da esquerda maior, círculo da direita menor; conclusão: circulo da esquerda maior que o da direita.
Se tirarmos os objectos da comparação, como fizemos na figura 5, a ilusão é desfeita.
Figura 5: Ilusão de Óptica Desfeita
E não pense que isto só acontece com testes em folhas de papel ou no computador. Este tipo de erro acontece no dia a dia e é, por exemplo, responsável por a lua parecer maior junto ao horizonte do que quando vista no meio do céu. Este tipo de ilusão é música para os ouvidos dos artistas/videntes2 que podem logo fazer belas previsões do género :
amanhã por volta das 22h a lua vai estar no ponto mais próximo da terra e influenciar negativamente/positivamente (escolher conforme o o aspecto saudável/doente/feliz/infeliz do cliente) a sua noite.
O cliente, se tiver inclinação para acreditar neste palavreado vazio, vai estar atento a aspectos da sua noite que confirmem o que o vidente disse, e voilá, uma previsão correcta por parte do vidente.
Ilusões e mais ilusões
Mas nem só de ilusões de óptica vive o nosso cérebro. As ciências cognitivas têm trazido à luz uma série de “problemas” com o funcionamento do cérebro que explicam alguns dos mais velhos mitos que rodeiam a espécie humana. Alguns desses erros de funcionamento têm servido como base para alguns dos truques mais velhos.
Eis dois fenómenos curiosos…
Movimentos inconscientes
Quase toda a gente conhece as sessões em que supostamente se comunica com espíritos através de copos que se deslocam em cima de mesas ou aquelas pessoas que acham que conseguem adivinhar o sexo de um bebé na barriga de uma pessoa, com uma agulha pendurada num fio ou ainda as pessoas que pensam que conseguem descobrir água com um graveto nas mãos.
Todos estes fenómenos são derivados de ordens sub-conscientes que o nosso cérebro dá aos nossos membros para eles se moverem de acordo com as nossas expectativas. Se sabemos a resposta que o copo quer dar, vamos estar à espera que ele se desloque na direcção da letra certa; se achamos que num determinado local há agua achamos que o graveto deve abanar. Essa expectativa é o suficiente para o nosso sub-consciente enviar ordem aos músculos para efectuar o movimento que esperamos ver acontecer.
Este fenómeno chama-se efeito ideomotor, e o que é extraordinário é que este fenómeno foi descoberto em 18523 durante investigações efectuadas para perceber como funcionava o truque dos espíritos que comunicam com pessoas através de objectos e 150 anos depois ainda os artistas enganam pessoas com ele!
Se quiser, pode facilmente tentar reproduzir este efeito:
Pendure uma agulha, um anel, uma chave ou qualquer outro objecto pequeno num fio com pelo menos 30 centímetros, pegue na ponta do fio e estique o seu braço horizontalmente à sua frente. Agora, esqueça o braço, não o tente movimentar mas também não faça força para ele não se mover e concentre-se no objecto. Visualize-o a começar a baloiçar lentamente na ponta do fio…. não tente mexer o braço…. mas também não o impeça…ordene e visualize o objecto a baloiçar…
Se tudo correr bem, a sua mão vai começar a fazer micro-movimentos de modo a movimentar o objecto. “Mas é claro que a mão mexe, isso é uma parvoíce”. Pois é, Mas é assim que os artistas fazem! Se alguma vez for confrontado com um artista destes, não olhe para o objecto que ele tenta movimentar/rodar/abanar, olhe para a mão ou para o braço. No caso dos copos “fantasmas” faça perguntas a que nenhum dos presentes saiba a resposta e/ou experimentem com os olhos vendados4.
Ver e ouvir o que não está lá
O ser humano é um animal social, e como qualquer animal social vive melhor, prospera, pois claro, em sociedade.
Um ser humano sozinho tem grande probabilidade de não sobreviver, e por isso, os nossos cérebros estão programados para reconhecer e encontrar outros seres humanos, mais especificamente as suas caras ou vozes. Mas no seu esforço por reconhecer vozes e caras, vê caras ou ouve vozes onde elas não existem.
O fenómeno psicológico de ver ou ouvir o que não está lá, é a pareidolia e é responsável por vermos caras na lua, cristos em torradas, formas nas nuvens, figuras em estalactites e estalagmites (Figura 6) e ouvirmos frases inexistentes em músicas tocadas de trás para a frente.
Figura 6: Exemplos de Pareidolia da direita para a esquerda: cara em Marte, caixa admirada e outra cara (ou serão só dois círculos e um risco?)
Precisamos de um cérebro novo?
O nosso cérebro é fantástico e faz maravilhas, estes erros são negligenciáveis no dia a dia e não devemos perder muito tempo a preocupar-nos com eles. Excepção feita quando somos confrontados com informações/factos/ideias novas especialmente se vierem pela mão de quem nos quer vender alguma coisa. Nessas situações é importante estar a par destes erros cognitivos e encarar o assunto com o maior dos cepticismos e muito espírito critico.
Mas esperem, ainda tenho mais um truque na manga!
Olhem para os quatro pontos no centro da figura 7 durante 30 segundos sem piscar os olhos, depois olhem de imediato para uma parede branca e pisquem os olhos rápida e repetidamente.
Não digam que vão daqui sem uma experiência espiritual!
Figura 7: Ilusão provocada por cansaço dos foto-receptores Os foto-receptores que estão a receber a zona branca da imagem vão ficar cansados e vão reagir lentamente à nova imagem toda a branco, enquanto os que estavam a receber informação da zona preta reagem de imediato. O resultado é que vai ver a preto o que na imagem estava a branco o que vai criar um negativo dessa imagem.
Notas de Rodapé
1. Estudos recentes apontam na direcção de a maior parte das nossas decisões ser tomada no sub-consciente que só posteriormente “informa” a parte consciente do cérebro. Sobre este assunto, vale a pena ler “Incognito: The Secret Lives of The Brain”, David Eagelman, Canongate, 2011 2. Um vidente não passa de um artista especializado na arte da ilusão. Daqui para a frente passo a usar somente o vocábulo “artista”. 3. Para os mais interessados aconselho vivamente a leitura do documento onde foi descrito pela primeira vez o efeito ideomotor digitalizado e colocado online em http://www.sgipt.org/medppp/psymot/carp1852.htm 4. Há inúmeros vídeos na Internet a explicar e a demonstrar o efeito ideomotor que podem ser encontrados se procuramos por “ideomotor video”, por exemplo.
Índice de Figuras
2. Evolução do olho, Wikimedia, licença CC-BY S.A. 3.0 6.a Cara em Marte, Jet Propulsion Lab of the United States National Aeronautics and Space Administration (NASA) under Photo ID: PIA01141. 6.b Caixa de Cartão, Wikimedia, licença CC-BY S.A. 3.0