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FAP, CAPÍTULO 2 : Cepticismo – O maravilhoso mundo do pensamento crítico

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Espírito Crítico

Podemos confiar no que uma pessoa diz que viu ou sentiu para formarmos opiniões com implicações importantes na nossa vida? Não tenho dúvidas que a resposta é não. Não devemos aceitar como prova da existência de explicações fora das leis naturais (sobrenaturais) a palavra de uma pessoa por mais confiança que tenhamos nela. Aliás, até vou mais longe, não devemos confiar em nós mesmos quando confrontados com coisas que desafiam as leis da natureza. Já vimos que é muito fácil o nosso cérebro enganar-se.

E pode a crença em explicações sobrenaturais para pequenos acontecimentos ou truques de magia afectar a nossa vida? Eu sou da opinião que sim. Ao aceitarmos que determinado acontecimento não tem explicação natural/científica e que a sua explicação está em espíritos/energias/magia estamos a colocar-nos em posição de aceitar a mesma explicação para assuntos de importância na nossa vida: se é possível àquele mágico conseguir levitar1 só com a força da mente porque não há-de ser possível curar um cancro só com a força da mente (e a ajuda paga de um “especialista”)?

Ao aceitarmos que é possível colocar espíritos a falar connosco através de copos em cima de uma mesa, estamos a aceitar que existem espíritos e estamos a abrir a hipótese de sermos enganados.

Não devemos nunca contentarmo-nos com uma explicação fácil na falta de uma explicação boa. Não é por nós não conhecermos a explicação de algo que essa explicação não existe. Na falta de uma boa explicação a resposta não é: “é a energia cósmica” ou “são os espíritos”. Nessa situação a única resposta aceitável é : “não sei”.

A leitura a frio

Um bom exemplo de como a falta de espírito crítico tem ao longo dos tempo levado pessoas a serem enganadas e roubadas é o trabalho realizado por espíritas, astrólogos e afins.
Estes artistas limitam-se a dizer frases genéricas que se aplicam a qualquer pessoa, especialmente porque as frases têm quase sempre duplo sentido “vejo que é uma pessoa forte mas que por vezes tem momentos de fraqueza” ou que vão atirando o barro à parede com frases do género “vejo que perdeu uma pessoa importante na sua vida” e lêem a reacção da pessoa e se for positiva continuam a história e se a pessoa discordar mudam de assunto ou passam o acontecimento para o futuro “pode ainda não ter acontecido…”.

Alguns artistas são um bocado mais sofisticados e adequam o discurso ao cliente. Se for um homem de meia idade podem dizer “vejo que as suas responsabilidades adiam os seus sonhos” ou se for uma mulher “vejo que cuidar da sua família obrigou-a a abrandar ou até a desistir de uma carreira”. Este processo a que é dado o nome de leitura a frio é largamente ajudado pelo cliente crente2. Como acha que a pessoa que está à sua frente tem poderes, está aberto a acreditar nisso e quando ela falha alguma previsão, esquece-a. Chama-se tendência de confirmação e é um truque giro do nosso cérebro; esquecermos o que não nos interessa.

Temos a mania que sentimos quando alguém nos telefona? Simples, lembramos a única vez em isso aconteceu e esquecemos as dezenas de vezes em que alguém nos telefonou e não estávamos a pensar nessa pessoa ou das dezenas de vezes em que pensamos nela e ela não telefonou. Bem, para sermos justos não é que nos tenhamos esquecido, simplesmente não nos lembramos. Porque raio nos havíamos de lembrar de todos esses acontecimentos que estão sempre a acontecer? Agora uma pessoa telefonar quando estamos a pensar nela, isso sim! Aí está algo fora do comum que vale a pena manter na memória.

Já agora, os signos, os astros, as linhas da palma da mão não servem para nada, fazem simplesmente parte do espectáculo, apesar de também poderem ajudar o artista. Por exemplo a leitura da palma da mão em que o artista agarra a mão do cliente, permite manter algum controlo físico sobre ele dificultando a sua fuga e permite “ler” as reacções do cliente: se disse alguma coisa acertada é provável que haja da parte dele alguma reacção física, um estremecer que permite ao artista perceber que está no “bom” caminho, e claro, a avaliação do estados das mãos e das unhas pode dar boas pistas sobre a pessoa. Se costuma ver o mentalista3 na televisão é provável que já tenha visto estes ou outros truques parecidos.

A leitura a quente

Mas os verdadeiros mestres da aldrabice são os artistas que fazem leitura a quente. Os que conhecem previamente as pessoas que vão “ler”.
É comum em sessões de grupo, como as que passam na televisão ou em espectáculos religiosos onde são efectuadas curas, os espectadores/clientes preencherem um cartão com os seus dados para uso futuro ou então simplesmente terem de esperar numa sala onde vão conversando e onde vão circulando membros da quadrilha que vão registando mentalmente o que ouvem para uso posterior. Durante a sessão essa informação que foi recolhida é passada para o artista, por via rádio por exemplo, que vai repetindo o que lhe transmitem como se estivesse a receber essa informação do além.

Mente aberta

E o que torna as energias cósmicas ou os espíritos más explicações? Porque não as devemos considerar como respostas possíveis?
Devemos estar abertos a novas possibilidades, sim. Não temos explicações para tudo o que existe, e se queremos continuar a aprender como espécie, temos de ter a mente aberta a novas explicações. Mas isso não quer dizer que devemos aceitar como verdadeiras, explicações sem provas dadas ou comprovadamente falsas.
A esmagadora maioria dos eventos/factos atribuídos a forças sobrenaturais estão hoje em dia explicados mas infelizmente essas explicações são poucos conhecidas ou desprezadas. Isso acontece em parte porque durante gerações e gerações as explicações sobrenaturais foram de tal maneira difundidas que se torna praticamente impossível erradicá-las. Mas também não podemos ignorar o facto de a realidade ser complexa e as explicações serem obviamente complexas, o que dificulta a sua compreensão e consequentemente a sua transmissão.

Navalha de Occam

Occam foi um padre franciscano que nasceu na Inglaterra em 1285 e morreu na Alemanha em 1347. Escreveu várias obras sobre política, filosofia e teologia e ficou na história graças à frase “pluritas non est ponenda sine neccesitate”/”pluridades não devem ser postas sem necessidade” e que é normalmente convertida em “a explicação mais simples é provavelmente a certa”.
Este príncipio já defendido por Aristóteles (Séc. IV AEC) e conhecido pelo nome “navalha de Occam” deve estar sempre presente ao analisarmos um relato de um acontecimento/noticia/evento. Se alguém lhe disser que leu num jornal que a mulher mais idosa do mundo tem 150 anos, várias hipóteses são possíveis:

  • A mulher tem mesmo 150 anos
  • A mulher (ou quem falou por ela) mentiu
  • A mulher (ou quem falou por ela) está enganado/a
  • O repórter mentiu
  • O jornal enganou-se
  • A pessoa leu mal a noticia
  • A pessoa já não se lembra bem da idade que leu no jornal

Destas hipóteses há uma que salta à vista. Uma delas obriga a repensar o que conhecemos do ser humano. As pessoas mais idosas documentadas até ao momento encontram-se sempre da casa dos 110 anos (122 é o recorde conhecido), para chegar a 150 essa pessoa teria de ter uma constituição muito especial, teria de viver em condições especiais, enfim teríamos de pensar numa explicação pouco simples para explicar este facto. Qualquer umas das outras respostas é mais simples, mais comum e muito mais provável.

No mundo das fraudes e aldrabices a escolha é normalmente entre uma resposta que requer forças/energias não explicáveis e uma resposta simples, e extremamente comum: aldrabice. Qual acham que é mais simples, qual acham que é mais provável?

Não é aldrabice? Existem mesmo forças desconhecidas em acção? Muito bem, então como Carl Sagan colocou de maneira brilhante “afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias”!
Não nos vamos contentar com as palavras das pessoas envolvidas. Queremos provas, provas em ambientes controlados onde a probabilidade de conseguir aldrabar seja o mais reduzido possível.

James Randi

Há dois tipos de mágicos, os que explicam que tudo não passa de truques/ilusionismos e os que se apresentam como verdadeiros mágicos. James Randi pertence ao primeiro grupo. Começou a sua carreira em 1946 e realizou várias proezas entre elas bater o recorde que pertencia a Harry Houdini4 de permanência dentro de um cofre no fundo de uma piscina .

Mas não é como mágico que ele é mais conhecido, é como céptico. Como mágico e conhecedor da arte de iludir, desmascarou inúmeros mágicos que diziam ter verdadeiros poderes psíquicos entre eles Uri Geller, o Israelita que na década de 70 ficou famoso por dobrar colheres com o poder da mente (segundo ele, claro) e James Hydrick um Norte-Americano “mestre” de Artes Marciais que afirmava ter poderes telecinéticos5.

Em 1964, durante um programa de rádio um ouvinte desafiou-o a “colocar o dinheiro onde tinha a boca” ao que ele respondeu que daria mil dólares a quem conseguisse provar ter poderes paranormais.
Provar que se tem poderes é algo relativamente simples, coloca-se a pessoa num ambiente controlado, onde não pode fazer truques, e mede-se os resultados. O prémio tem vindo a crescer ao longo dos anos, e está agora em um milhão de dólares e sob a alçada da James Randi Educational Foundation. Centenas de pessoas aceitaram ser submetidas aos testes e todas falharam estando até ao momento por provar que existam pessoas com poderes paranormais.

Assim o meu conselho a quem ler este texto e achar que tem poderes e que eu sou um descrente e que não sei do que falo, e que tenho a mania que sou esperto e que não acreditam em bruxas mas que as há, há e todo esse género de auto-ilusões não percam tempo a dizer-me isso, concorram ao prémio, desmintam-me e fiquem ricos ao mesmo tempo.

Os aldrabões e as energias negativas

Os aldrabões são muito bons a enganar crentes mas quando estão na presença de cépticos que estão atentos a todos os seus movimentos ou em situações controladas onde não podem fazer os seus truques falham de modo escandaloso. Mas não é isso que os pára porque, segundo eles, a energia negativa dos cépticos faz os seus poderes falhar. E com esta resposta absolutamente ridícula conseguem continuar a enganar os crentes que acham que essa reposta faz sentido.

A triste realidade

Mas a triste realidade é que estou a gastar o meu latim. As pessoas querem acreditar, querem que existam soluções fáceis, querem acreditar que o futuro lhes é favorável, querem acreditar que serão curadas sem operações, sem médicos. E estão dispostas a pagar para ter isso. E não há nada que possamos fazer para as convencer do contrário. A crença é algo que está de tal maneira enraizada no cérebro que é praticamente impossível removê-la.

Quando uma pessoa é confrontada com informação nova que contraria a sua crença, existe um conflito no cérebro e este fica dividido criando uma dissonância cognitiva.
Este fenómeno foi estudado pela primeira vez por Leon Festinger (Nova York, 8 de Maio de 1919 – Nova York, 11 de Fevereiro de 1989) que juntamente com dois colegas se infiltrou num culto que previa o fim do mundo e a salvação dos membros do grupo por uma nave extra-terrestre6. Quando nada disso aconteceu, o grupo ao invés de deixar de acreditar passaram a acreditar ainda mais convictamente. Tinham feito um sacrifício pessoal tão grande que simplesmente não eram capazes de aceitar que afinal estavam errados7.

O que a teoria da dissonância cognitiva nos diz é muito interessante: alteramos a nossa percepção/entendimento/avaliação dos factos que vão contra as nossas crenças/hábitos/decisões anteriores. E quanto maiores forem os sacrifícios pessoais que foram feitos por essa crença, mais dificilmente aceitamos a verdade:

  • Desvalorizamos as críticas ao carro que comprámos com as poupanças de vários anos
  • Nunca vemos ou desvalorizamos os penaltis contra o nosso clube;
  • Fumar faz mal, mas alivia o stress que é pior que fumar, por isso não há problema se eu fumar;
  • eu sou bem comportado e o professor castigou-me. O professor não gosta de mim.

Desvalorizamos os factos que contrariam e valorizamos os que apoiam a opinião que temos sobre um assunto.

Por mais errado que seja este tipo de raciocínio não deixa de ter a sua utilidade. Permite diminuir na nossa mente, a importância dos nossos erros evitando assim que nos torturemos por eles o que em situações limite poderia levar ao suicídio.
É um mecanismo de sobrevivência útil, mas que convém conhecer e controlar se queremos fazer um juízo certo das situações que nos são apresentadas.

O que esta teoria nos diz é de uma importância extrema na nossa capacidade de decidir e que nunca é demais repetir: Depois de o cérebro ter tomado uma decisão sobre um assunto, vai valorizar as informações que apoiem essa opinião e ignorar as que a contrariem.

Fim de viagem

Esta foi uma muito curta viagem para o introduzir ao cérebro e ao pensamento crítico, espero que tenha gostado.
Vamos passar agora a explorar algumas das fraudes, aldrabices e parvoíces mais conhecidas.

 

Notas de Rodapé

 

1. Procure na Internet por “levitação Balducci” e aprenda um truque simples que, nas condições certas (ângulo, luz, roupa), dá a ilusão de uma auto-levitação de 10/20 centímetros.
2. Full Facts Book of Cold Reading escrito por Ian Rowland é considerado o melhor livro sobre leitura a frio e pode ser comprado no seu site em http://www.thecoldreadingbook.com/
3. O Mentalista é uma série televisiva em que o consultor Patrick Jane (Simon Baker) trabalha com um departamento policial e usa os conhecimentos adquiridos quando trabalhava como vidente para resolver casos. Apesar de a série ser de uma maneira geral igual a qualquer outra das muitas que existem, em alguns episódios Patrick usa, e explica, truques que são usados por muitos artistas na vida real.
4. Houdini também assumia que tudo era feito com truques e como céptico também desmascarava vigarices.
5. Vale a pena ver o programa televisivo onde James Randi desmascarou James Hydrick em http://www.youtube.com/watch?v=QlfMsZwr8rc e este pequeno vídeo onde se vêm algumas das suas “habilidades” e a sua confissão http://www.youtube.com/watch?v=u7yDLRib5CQ
6. Infelizmente este tipo de parvoíce ainda é muito comum. Harold Camping após “analisar” a bíblia “concluiu” que o fim do mundo seria em 2011 (depois de ter previsto e falhado que seria em 1994). Os seus seguidores gastaram fortunas a promover o acontecimento e muitos desfizeram-se de tudo o que tinham, e traduções. Podem saber mais em http://pt.wikipedia.org/wiki/Profecia_do_fim_do_mundo_em_2011
7. O trabalho desenvolvido sobre este assunto foi publicado no livro “When Profecy Fails”, HarperTorchbooks, 1964.

 

 

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FAP, CAPÍTULO 1 : O Cérebro – Cuidados a ter na sua utilização

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Instalar a desconfiança

O nosso cérebro e os nossos sentidos não podem ser confiados cegamente. O cérebro tem vida própria1 e por vezes toma decisões e não nos explica porquê ou como o fez. Os sentidos, por sua vez, muitas vezes não funcionam como nós esperamos e pregam-nos partidas.
Para que não tenhamos dúvidas sobre esse facto e para que não pense que estou aqui só para o colocar de mal com o seu cérebro e restante corpo, faça o seguinte exercício:

Tape o olho esquerdo e olhe com o olho direito directamente para a estrela da figura 1. Comece com uma distancia de cerca de 50 cm vá aproximando a cara devagar sempre a olhar para a estrela. As duas bolas devem ser visíveis com a sua visão lateral. Vá afastando e aproximando a sua cara do monitor devagar entre os 20 e os 50 cm até uma das bolas desaparecer. Se não conseguir experimente, com distâncias maiores/menores.

Viu umas das bolas a desaparecer? Espero que sim. Não se trata de uma ilusão de óptica que funcione para uns e não para outros, é uma característica física dos nossos olhos que é impossível contornar.

Figura 1: Detecção de ponto cego fisiológico

Do olho ao cérebro

Figura 2: Olhos de Vertebrado e de Polvo – 1. retina; 2. células foto-receptoras; 3. nervo óptico; 4. ponto cego

A luz é detectada por células foto-receptoras instaladas na retina dos nossos olhos. Essa informação é convertida em sinais eléctricos e transmitida ao cérebro através do nervo óptico. No olho de um polvo (à direita na figura 2) a história acaba aqui, mas nos vertebrados (à esquerda) existe uma complicação. Os sensores ópticos estão voltados para trás e as fibras ópticas que fazem a ligação ao cérebro têm de atravessar a retina para chegar ao cérebro. Na zona de passagem, como é óbvio, não há células foto-receptoras e por isso, não vemos. Esse ponto chama-se ponto cego fisiológico.

 

Felizmente, temos dois olhos, e o cérebro faz a composição dos dois para nos apresentar uma imagem completa e sem falhas. É um feito extraordinário da parte do nosso cérebro e levar-nos-ia a levantar-mo-nos e a fazer-lhe uma ovação não fosse um pequeno pormenor que apesar de fantástico não deixa de me incomodar; o que o cérebro não vê, inventa!

Se repararam, e se não repararam façam de novo, o local onde o ponto desaparece não fica preto como devia ficar. Se não há foto-receptores para verem o que há ali, não entra luz, se não entra luz devia ficar preto, mas não fica, fica branco como o resto da folha.

É absolutamente brilhante: se o que está à volta é branco, ali naquele pontinho que não sei o que se passa o mais certo é ser branco também.
Pois é, é o mais certo mas não quer dizer que seja o certo, como é o caso. Experimente o mesmo exercício mas agora com dois traços em vez de duas bolas:

Figura 3: Detecção de ponto cego fisiológico

Se o leitor não for um polvo, é provável que haja uma altura em que ao invés de dois traços vai ver um. O que acontece é que o cérebro não vê o que se passa entre os dois traços e se à esquerda à traço e à direita também, o mais provável é ser tudo um traço.

Não é um problema muito grave, afinal o ponto é pequeno e não dá para o cérebro inventar muito nesse espaço. No entanto, esta experiência serve para percebermos que o cérebro quando não sabe, pode inventar, e como tal as suas conclusões têm de ser encaradas com alguma desconfiança, especialmente quando somos confrontados com visões que não se enquadram com o esperado funcionamento da realidade como a conhecemos.

Há inúmeros exemplos e testes sobre ilusões de óptica, ou seja, situações em que o cérebro interpreta mal os dados que chegam dos olhos. O exemplo da figura 4 é um dos meus favoritos, tal é a clareza e simplicidade do mesmo.

Figura 4: Ilusão de Óptica

O cérebro tem dificuldade em avaliar o tamanho dos objectos, usando normalmente os objectos em redor para comparações.
Ele sabe que o círculo central da esquerda é maior que os círculos à volta e que o círculo central da direita é menor que os círculos à volta; círculo da esquerda maior, círculo da direita menor; conclusão: circulo da esquerda maior que o da direita.
Se tirarmos os objectos da comparação, como fizemos na figura 5, a ilusão é desfeita.

Figura 5: Ilusão de Óptica Desfeita

E não pense que isto só acontece com testes em folhas de papel ou no computador. Este tipo de erro acontece no dia a dia e é, por exemplo, responsável por a lua parecer maior junto ao horizonte do que quando vista no meio do céu. Este tipo de ilusão é música para os ouvidos dos artistas/videntes2 que podem logo fazer belas previsões do género :

amanhã por volta das 22h a lua vai estar no ponto mais próximo da terra e influenciar negativamente/positivamente (escolher conforme o o aspecto saudável/doente/feliz/infeliz do cliente) a sua noite.

O cliente, se tiver inclinação para acreditar neste palavreado vazio, vai estar atento a aspectos da sua noite que confirmem o que o vidente disse, e voilá, uma previsão correcta por parte do vidente.

Ilusões e mais ilusões

Mas nem só de ilusões de óptica vive o nosso cérebro. As ciências cognitivas têm trazido à luz uma série de “problemas” com o funcionamento do cérebro que explicam alguns dos mais velhos mitos que rodeiam a espécie humana. Alguns desses erros de funcionamento têm servido como base para alguns dos truques mais velhos.
Eis dois fenómenos curiosos…

Movimentos inconscientes

Quase toda a gente conhece as sessões em que supostamente se comunica com espíritos através de copos que se deslocam em cima de mesas ou aquelas pessoas que acham que conseguem adivinhar o sexo de um bebé na barriga de uma pessoa, com uma agulha pendurada num fio ou ainda as pessoas que pensam que conseguem descobrir água com um graveto nas mãos.

Todos estes fenómenos são derivados de ordens sub-conscientes que o nosso cérebro dá aos nossos membros para eles se moverem de acordo com as nossas expectativas. Se sabemos a resposta que o copo quer dar, vamos estar à espera que ele se desloque na direcção da letra certa; se achamos que num determinado local há agua achamos que o graveto deve abanar. Essa expectativa é o suficiente para o nosso sub-consciente enviar ordem aos músculos para efectuar o movimento que esperamos ver acontecer.

Este fenómeno chama-se efeito ideomotor, e o que é extraordinário é que este fenómeno foi descoberto em 18523 durante investigações efectuadas para perceber como funcionava o truque dos espíritos que comunicam com pessoas através de objectos e 150 anos depois ainda os artistas enganam pessoas com ele!

Se quiser, pode facilmente tentar reproduzir este efeito:
Pendure uma agulha, um anel, uma chave ou qualquer outro objecto pequeno num fio com pelo menos 30 centímetros, pegue na ponta do fio e estique o seu braço horizontalmente à sua frente. Agora, esqueça o braço, não o tente movimentar mas também não faça força para ele não se mover e concentre-se no objecto. Visualize-o a começar a baloiçar lentamente na ponta do fio…. não tente mexer o braço…. mas também não o impeça…ordene e visualize o objecto a baloiçar…

Se tudo correr bem, a sua mão vai começar a fazer micro-movimentos de modo a movimentar o objecto. “Mas é claro que a mão mexe, isso é uma parvoíce”. Pois é, Mas é assim que os artistas fazem! Se alguma vez for confrontado com um artista destes, não olhe para o objecto que ele tenta movimentar/rodar/abanar, olhe para a mão ou para o braço. No caso dos copos “fantasmas” faça perguntas a que nenhum dos presentes saiba a resposta e/ou experimentem com os olhos vendados4.

Ver e ouvir o que não está lá

O ser humano é um animal social, e como qualquer animal social vive melhor, prospera, pois claro, em sociedade.
Um ser humano sozinho tem grande probabilidade de não sobreviver, e por isso, os nossos cérebros estão programados para reconhecer e encontrar outros seres humanos, mais especificamente as suas caras ou vozes. Mas no seu esforço por reconhecer vozes e caras, vê caras ou ouve vozes onde elas não existem.

O fenómeno psicológico de ver ou ouvir o que não está lá, é a pareidolia e é responsável por vermos caras na lua, cristos em torradas, formas nas nuvens, figuras em estalactites e estalagmites (Figura 6) e ouvirmos frases inexistentes em músicas tocadas de trás para a frente.

Figura 6: Exemplos de Pareidolia da direita para a esquerda: cara em Marte, caixa admirada e outra cara (ou serão só dois círculos e um risco?)

Precisamos de um cérebro novo?

O nosso cérebro é fantástico e faz maravilhas, estes erros são negligenciáveis no dia a dia e não devemos perder muito tempo a preocupar-nos com eles. Excepção feita quando somos confrontados com informações/factos/ideias novas especialmente se vierem pela mão de quem nos quer vender alguma coisa. Nessas situações é importante estar a par destes erros cognitivos e encarar o assunto com o maior dos cepticismos e muito espírito critico.

Mas esperem, ainda tenho mais um truque na manga!
Olhem para os quatro pontos no centro da figura 7 durante 30 segundos sem piscar os olhos, depois olhem de imediato para uma parede branca e pisquem os olhos rápida e repetidamente.
Não digam que vão daqui sem uma experiência espiritual!

Figura 7: Ilusão provocada por cansaço dos foto-receptores Os foto-receptores que estão a receber a zona branca da imagem vão ficar cansados e vão reagir lentamente à nova imagem toda a branco, enquanto os que estavam a receber informação da zona preta reagem de imediato. O resultado é que vai ver a preto o que na imagem estava a branco o que vai criar um negativo dessa imagem.

Notas de Rodapé

1. Estudos recentes apontam na direcção de a maior parte das nossas decisões ser tomada no sub-consciente que só posteriormente “informa” a parte consciente do cérebro. Sobre este assunto, vale a pena ler “Incognito: The Secret Lives of The Brain”, David Eagelman, Canongate, 2011
2. Um vidente não passa de um artista especializado na arte da ilusão. Daqui para a frente passo a usar somente o vocábulo “artista”.
3. Para os mais interessados aconselho vivamente a leitura do documento onde foi descrito pela primeira vez o efeito ideomotor digitalizado e colocado online em http://www.sgipt.org/medppp/psymot/carp1852.htm
4. Há inúmeros vídeos na Internet a explicar e a demonstrar o efeito ideomotor que podem ser encontrados se procuramos por “ideomotor video”, por exemplo.

Índice de Figuras

2. Evolução do olho, Wikimedia, licença CC-BY S.A. 3.0
6.a Cara em Marte, Jet Propulsion Lab of the United States National Aeronautics and Space Administration (NASA) under Photo ID: PIA01141.
6.b Caixa de Cartão, Wikimedia, licença CC-BY S.A. 3.0

 

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